Estas linhas pretendem ser apenas um exercício de reflexão sobre um vocábulo, para muitos identitário - crioulo.
Como cabo-verdianos, orgulhosamente nos assumimos como crioulos, falamos crioulo e, muito provavelmente, a maioria sustenta e sente que a nossa cultura é crioula.
Fazendo uma viagem na linha do tempo, no final da década de 50 vamos encontrar o surgimento de uma nova disciplina científica - a crioulística.
O seu aparecimento está fortemente ligado ao primeiro congresso internacional sobre línguas crioulas, realizado na Jamaica e que contava com diversos especialistas na matéria, entre os quais Jack Berry, Douglas Taylor, etc.
O termo crioulística por si só já é bastante descritivo acerca do seu objecto de estudo e do seu alcance, mas continuando a viagem na linha do tempo e quanto à palavra "crioulo", no séc. XVI parece que foi associada a uma "espécie de português que se falava em Goa - Índia". Não deixa de ser uma válida possibilidade até porque em Goa os cafres (africanos) levados para lá falavam o seu "crioulo".
Mas mais fidedignos que essa hipótese são os primeiros registos conhecidos da palavra "crioulo" e que se situam próximo da última quinzena do séc. XVII: «...fazem algüas erroneas palavras do crioulo de Cachéu...», Francisco de Lemos Coelho, 1684; «... de los criollos de esta tierra», Fr. Francisco de la Mota e Fr. Angel de Fuente la Peña (capuchinhos espanhois), 1686; «...Bacampolo Có (rei de Bissau)... entende muito bem a língua portuguesa, e poderia falar o crioulo se quisera», D. Vitoriano Portuense (bispo de Cabo verde), 1694.
Confiando nos relatos históricos, podíamos então situar o registo do termo "crioulo" por volta da época referida.
Confiando também nos dados históricos (e como é de esperar), é sabido que o processo de crioulização é bastante anterior aos registos da palavra "crioulo", tendo esta, por sua vez, uma aplicação também anterior ao que hoje conhecemos como sendo o resultado de cruzamento entre culturas.
Sobre o aparecimento dos "primeiros crioulos", é muito provável que tenham surgido por volta dos finais do séc. XV, altura em que se começou a colonização de forma mais metódica ou até umas décadas mais cedo.
Mas é já no séc. XVI que se conhecem relatos de vida de lançados portugueses vivendo entre as comunidades africanas wolof, fula, beafada, banhum, etc., alguns tendo mulheres africanas, outros até mesmo já com casamento. A título de exemplo, alguns dos nomes desses lançados: Gonçalo Paiva, João Ferreira, Bento Correia da Silva, etc.
Tudo isto, dados disponíveis.
Mas se continuássemos a viajar na linha do tempo, certamente que nos perderíamos ao tentar situar a origem da crioulização, dada a quantidade de culturas que estiveram em contacto e que produziram esse processo e, por conseguinte, "crioulo(s)".
Nesta linha de pensamento, se poderia dizer, mesmo que de forma grosseira, que a crioulização é tão antiga quanto o contacto entre diferentes culturas.
Apesar do termo "crioulo" ter aparecido como registo na última quinzena do séc. XVII, como fenómeno (ou resultado disso) ele é bastante anterior e não se aplica apenas ao contacto entre uma cultura europeia e africana ou outra.
O processo de crioulização é global e existiu, por exemplo, na China (entre chineses) e actualmente se verifica, principalmente no sudeste asiático, entre chineses e comunidades indonésias, filipinas e malaias; existiu também entre culturas árabes, africanas e tantas outras, mas com a diferença de ter outro nome que não crioulização.
Porquê então crioulo e não outra palavra?
Sobre a origem do termo, Leite de Vasconcelos (referência da linguística e arqueologia em Portugal), defendia que vinha de criadouro e que foi adaptada "à fala dos africanos".
Outros autores porém, arriscam em divergir sobre a sua aproximação etimológica, mas não há dúvidas: "crioulo" partilha a mesma raiz com as palavras criar, cria, criatura, criadouro, criação, etc.
Mas curiosamente, em primeira instância, "crioulo" era o animal criado em casa, animal doméstico. Em cabo-verdiano: "limária".
É por alguma razão que no Brasil a palavra "crioulo" permanece também com essa (primeira) definição. Seria então este o sentido denotativo da palavra, o sentido primeiro.
Posteriormente a isso passou a designar também o "escravo criado na casa do senhor". Aqui já não estaríamos no campo da denotação, mas sim da conotação, ou seja, a palavra passa a ter outro sentido. Neste caso, além de designar animal criado em casa, passaria a designar também o escravo criado em casa.
Actualmente, nas entradas lexicais dos dicionários, estas atribuições associadas à pessoa e à língua aparecem como as duas principais.
E sobre a língua, ela ganhou essa conotação numa fase posterir à pessoa. O "crioulo" como língua, de que fazem referência Francisco de Lemos Coelho e D. Vitoriano Portuense.
Nesta sequência conotativa temos como exemplos o nosso "crioulo de Cabo Verde", o "crioulo da Guiné", "crioulo de Macau" (já extinto?), etc. ou então noutras línguas de cultura (ex)colonial - Jamaican creole, créole martiniquais, Nederlandse creoolse talen, etc.
Estes exemplos e outros associam claramente o termo "crioulo" ao processo de colonização, a uma cultura europeia dominante e outra(s) cultura(s) dominada(s), podendo ser africana, asiática ou ameríndia...
Felizmente que o tempo daquele tipo de domínio já lá vai, mas o termo "crioulo" permaneceu como um legado dessa época e revela até certo ponto a mentalidade em relação às culturas dominadas, seres humanos considerados como outros animais domésticos. Isto para não falar dos que não eram criados em casa, aqueles escravos que não eram sequer considerados crioulos (pelo menos numa primeria fase).
Nos nossos tempos é doce ouvir dizer "sou crioulo" ou "falo crioulo", mas é amargo no ventre saber que crioulo era o animal criado em casa, condição de "limária".
É doce o açúcar moreno das dispersas plantações de cana - açucar que dá sabor à palavra crioulo e a tantas iguarias que saboreamos diariamente - mas é amarga no ventre a condição dos braços que produziam esse açúcar.
Passou o tempo daquele tipo de escravatura e felizmente hoje pode-se dizer com orgulho: somos mais do que uma nação crioula, somos uma nação cabo-verdiana.
Publicado em:
http://liberal.sapo.cv/noticia.asp?idEdicao=64&id=25924&idSeccao=527&Action=noticia
http://www.bravanews.com/?c=123&a=2212
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quinta-feira
A língua cabo-verdiana, conceito e preconceitos
Acabar com os preconceitos e relembrar o conceito da nossa língua materna é ainda necessário.
Separar as águas linguísticas em relação ao português também o é.
Penso que todos nós como cabo-verdianos reconhecemos o papel da língua portuguesa na nossa educação, no nosso desenvolvimento académico e humano, na nossa constante actualização, etc.
Por alguma razão, já com a independência, foi confirmada como a primeira língua oficial do nosso país.
Ainda sobre a língua portuguesa e a propósito do que tenho lido nalguns órgãos de comunicação do arquipélago, relembraria que o português é uma língua com variedades regionais, ou seja, apresenta especificidades situacionais com pequenas divergências gramaticais. Daí termos o português europeu (Portugal), português do Brasil, português de Moçambique, etc.
As pequenas divergências não são suficientes, por exemplo, para se dizer que existe "a língua brasileira". Existe, sim, a língua portuguesa com as suas variantes e com os seus dialectos.
No que toca ao português europeu há dois grupos dialectais: o setentrional (falado no norte) e o meridional (falado no sul e ilhas).
Virando a agulha para as ilhas e para quem tem o cabo-verdiano como língua materna, ler ou ouvir dizer que ela é português (como ainda acontece com alguns dos nossos irmãos nos USA), dialecto do português ou outra coisa que não seja LÍNGUA CABO-VERDIANA, é tão preconceituoso como chamar-lhe "língua de preto" (expressão usada por Gil Vicente e outros autores da época como Anrique da Mota e Fernão da Silveira).
O cabo-verdiano é uma língua! Este é o conceito.
Não é um dialecto nem outro tipo de preconceito.
É uma língua porque tem uma gramática própria, independente, coisa esta que lhe dá esse estatuto de língua e não propriamente a independência política. A sua gramática não pode ser comparada com a portuguesa e isso é tão perceptível como demonstrável a um menino ou a um adulto.
Curiosamente, de uma forma grosseira, diria que a nossa gramática (sobretudo a morfossintaxe) está tão próxima das línguas da África ocidental, como a maioria do nosso léxico está em relação ao português. No entanto, a nossa língua materna cabo-verdiana não é europeia nem africana. O nosso bioprograma não é português nem africano. É cabo-verdiano.
O cabo-verdiano tem o valor de uma língua, tal como o português, búlgaro, tagalo ou mandarim. É uma língua que tem as suas especificidades reflectidas no seu léxico, na sua sintaxe, na sua fonologia e semântica, ou seja, na sua gramática. Desta forma ela tem que ser tomada como um todo e não pode ser uma língua baseada apenas na parte lexical (onde encontramos os traços mais europeus). Ela é a nossa maior bandeira cultural, representante de um povo único com um bioprograma próprio, independente.
É sob esta perspectiva "do todo" que deve e merece ser estudada nas nossas escolas. É também sob esta perspectiva global que ela devia ser a base para a elaboração de um código escrito, que a contemple como língua de raiz luso-africana (ou se quiserem afro-portuguesa, euro-africana), um código de escrita consensual, o que implicaria cedências.
Publicada em:
http://www.bravanews.com/?c=123&a=2114
Separar as águas linguísticas em relação ao português também o é.
Penso que todos nós como cabo-verdianos reconhecemos o papel da língua portuguesa na nossa educação, no nosso desenvolvimento académico e humano, na nossa constante actualização, etc.
Por alguma razão, já com a independência, foi confirmada como a primeira língua oficial do nosso país.
Ainda sobre a língua portuguesa e a propósito do que tenho lido nalguns órgãos de comunicação do arquipélago, relembraria que o português é uma língua com variedades regionais, ou seja, apresenta especificidades situacionais com pequenas divergências gramaticais. Daí termos o português europeu (Portugal), português do Brasil, português de Moçambique, etc.
As pequenas divergências não são suficientes, por exemplo, para se dizer que existe "a língua brasileira". Existe, sim, a língua portuguesa com as suas variantes e com os seus dialectos.
No que toca ao português europeu há dois grupos dialectais: o setentrional (falado no norte) e o meridional (falado no sul e ilhas).
Virando a agulha para as ilhas e para quem tem o cabo-verdiano como língua materna, ler ou ouvir dizer que ela é português (como ainda acontece com alguns dos nossos irmãos nos USA), dialecto do português ou outra coisa que não seja LÍNGUA CABO-VERDIANA, é tão preconceituoso como chamar-lhe "língua de preto" (expressão usada por Gil Vicente e outros autores da época como Anrique da Mota e Fernão da Silveira).
O cabo-verdiano é uma língua! Este é o conceito.
Não é um dialecto nem outro tipo de preconceito.
É uma língua porque tem uma gramática própria, independente, coisa esta que lhe dá esse estatuto de língua e não propriamente a independência política. A sua gramática não pode ser comparada com a portuguesa e isso é tão perceptível como demonstrável a um menino ou a um adulto.
Curiosamente, de uma forma grosseira, diria que a nossa gramática (sobretudo a morfossintaxe) está tão próxima das línguas da África ocidental, como a maioria do nosso léxico está em relação ao português. No entanto, a nossa língua materna cabo-verdiana não é europeia nem africana. O nosso bioprograma não é português nem africano. É cabo-verdiano.
O cabo-verdiano tem o valor de uma língua, tal como o português, búlgaro, tagalo ou mandarim. É uma língua que tem as suas especificidades reflectidas no seu léxico, na sua sintaxe, na sua fonologia e semântica, ou seja, na sua gramática. Desta forma ela tem que ser tomada como um todo e não pode ser uma língua baseada apenas na parte lexical (onde encontramos os traços mais europeus). Ela é a nossa maior bandeira cultural, representante de um povo único com um bioprograma próprio, independente.
É sob esta perspectiva "do todo" que deve e merece ser estudada nas nossas escolas. É também sob esta perspectiva global que ela devia ser a base para a elaboração de um código escrito, que a contemple como língua de raiz luso-africana (ou se quiserem afro-portuguesa, euro-africana), um código de escrita consensual, o que implicaria cedências.
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